De romances clássicos ao sertão mítico, cidades e paisagens do Brasil se tornam protagonistas de obras consagradas e atraem leitores em busca de experiências culturais profundas.

Imagem: Luiz Costa
Caminhar por ruas descritas em romances, atravessar paisagens que inspiraram poetas ou visitar territórios eternizados pela ficção é uma experiência que conecta leitura e viagem de forma sensorial e afetiva. No Brasil, essa relação ganha força à medida que leitores passam a buscar destinos que dialogam diretamente com obras literárias, transformando o turismo em uma extensão da leitura.
A literatura brasileira tem forte vínculo com o território. Em muitos livros, cidades, biomas e regiões não são apenas cenários, mas personagens centrais das narrativas. Do sertão mineiro à Amazônia, do litoral baiano às capitais do Sul, o país abriga locais que atravessam gerações por meio das páginas.
Entre as iniciativas que exploram essa conexão está a NomadRoots, produtora de viagens com conhecimento que desenvolve roteiros personalizados e experiências em pequenos grupos a partir de referências literárias. A proposta é unir deslocamento, memória, paisagem e narrativa em viagens que aprofundam o entendimento das obras e de seus contextos.
“É uma vivência transformadora. Os livros ganham novas camadas quando visitamos os lugares que os inspiraram. A leitura se mistura ao olhar e à experiência, e o entendimento das obras se aprofunda”, afirma Paola Gulin, sócia fundadora da NomadRoots.
A seguir, alguns destinos brasileiros que marcaram a literatura nacional e seguem despertando o interesse de leitores-viajantes:
Curitiba (PR)
A capital paranaense é cenário recorrente na obra de Dalton Trevisan, um dos grandes nomes da literatura brasileira. Em livros como O Vampiro de Curitiba, Novelas Nada Exemplares e Cemitério de Elefantes, a cidade surge com contornos densos, urbanos e, por vezes, sombrios. Locais como o centro, a Boca Maldita, o bairro Alto da Glória e a Rua Ubaldino do Amaral aparecem nas narrativas e atraem leitores curiosos pela atmosfera descrita nos textos.
Pantanal
Entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, o Pantanal inspira parte significativa da obra de Manoel de Barros. Em livros como Livro de Pré-Coisas e Memórias Inventadas, o bioma aparece como território poético, marcado pela simplicidade, pelo olhar sensível e pela relação íntima com a natureza. A região segue como referência para quem busca compreender o imaginário pantaneiro presente na literatura.

Imagem: Cristian Dimitrius
Amazônia
Presente de forma constante nos romances de Milton Hatoum, a Amazônia surge como espaço de memória, conflito e identidade. Obras como Relato de um Certo Oriente, Dois Irmãos e Cinzas do Norte exploram relações familiares, tensões sociais e transformações históricas da região, reforçando o papel da floresta e das cidades amazônicas como elementos centrais da narrativa.
Salvador (BA)
A capital baiana é inseparável da obra de Jorge Amado. Em romances como Dona Flor e Seus Dois Maridos, Mar Morto, Jubiabá e Gabriela, Cravo e Canela, Salvador aparece em sua pluralidade cultural, religiosa e popular. A cidade se consolidou como um dos principais destinos literários do país, unindo ficção, história e cotidiano.
Vale do Urucuia (MG)
Cenário de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, o Vale do Urucuia, no norte de Minas Gerais, é um dos territórios mais emblemáticos da literatura brasileira. O sertão descrito no romance transcende a geografia e se transforma em espaço simbólico. A criação do Parque Nacional Grande Sertão Veredas reforça a relação entre literatura, preservação e turismo cultural.
Porto Alegre (RS)
A capital gaúcha aparece em obras de Érico Veríssimo, como Noite, em que ruas, parques e o centro da cidade são descritos de forma sensível e cinematográfica. A narrativa desperta no leitor o desejo de percorrer os mesmos caminhos e compreender a cidade a partir da literatura.
Nordeste e Sertão
A obra de Ariano Suassuna percorre cidades e paisagens do Nordeste, com destaque para Recife, Taperoá e regiões do sertão pernambucano e paraibano. Em O Auto da Compadecida e Romance d’A Pedra do Reino, o território aparece como elemento fundamental da identidade cultural nordestina, unindo humor, tradição e crítica social.
Ao unir literatura e viagem, esses destinos oferecem mais do que turismo: proporcionam encontros com a memória, a cultura e a identidade brasileira, ampliando a experiência da leitura para além das páginas.
