Comunicação não tira férias: por que crianças autistas com necessidades complexas precisam manter estímulos no recesso escolar

Especialista alerta que pausas prolongadas no uso da comunicação aumentativa e alternativa podem comprometer avanços em linguagem, interação social e autonomia

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Mesmo durante as férias escolares, garantir estímulos adequados é essencial para preservar o direito da criança à comunicação e à autonomia.

Durante as férias escolares e períodos de recesso, é comum que muitas famílias reduzam o uso do comunicador ou das pranchas de comunicação. No entanto, quando o assunto é desenvolvimento da comunicação em crianças autistas com necessidades complexas de comunicação, a interrupção total de estímulos, pode trazer prejuízos importantes.

De acordo com a fonoaudióloga e analista do comportamento Letícia Sena, a comunicação é uma habilidade que se constrói de forma contínua e depende do uso diário e cotidiano, ou seja, o desenvolvimento da comunicação e da linguagem acontece principalmente na experiência. “Comunicação não é como um conteúdo escolar, é uma habilidade básica para se viver bem. Algumas crianças autistas não desenvolvem fala funcional ou desenvolvem pouco funcional essas são, por exemplos, necessidades complexas de comunicação. Nestes casos, precisa usar CAA (comunicação aumentativa e alternativa) e fazer uma pausa na CAA nas férias, é o mesmo que calar ou ignorar a voz de alguém que quer e precisa comunicar, mas só utiliza outro meio.”

Manter estímulos não significa reproduzir a rotina da escola ou da terapia, nem muito menos se tornar terapeuta do seu filho, mas significa aproveitar situações do dia a dia como oportunidades de comunicação e puxar assunto ou esperar que respondam, usando as pranchas de comunicação, seja no papel ou em dispositivos de alta tecnologia. Atividades simples, como escolher o que comer, pedir um brinquedo, participar de passeios ou interagir em jogos, podem ser potentes quando mediadas de forma adequada.

Letícia Sena explica que muitas crianças autistas apresentam maior dificuldade para generalizar habilidades. Por isso, longos períodos sem estímulo podem gerar regressões. “A criança aprende, mas precisa praticar com outras pessoas, em outros ambientes e em outros contextos. Se ela passa semanas sem usar seus recursos de comunicação, o esforço para retomar depois pode ser maior.”

O especialista destaca ainda que a responsabilidade pelo uso de CAA, não deve recair apenas sobre a escola ou os terapeutas. A família tem papel central nesse processo. “Estimular comunicação é oferecer acesso, escuta e tempo. É permitir que uma criança se expresse do jeito dela, todos os dias.”

Mesmo durante férias e feriados, mantenha uma rotina mínima de interação favorecendo o desenvolvimento, fortalecendo vínculos e ampliando a autonomia da criança. Como reforça Letícia, “comunicação não tira férias porque o direito de se comunicar também não.”

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