Cerimônia realizada na Cidade Industrial de Curitiba reúne mestres e professores de diferentes estados e destaca o papel da capoeira na educação, no desenvolvimento social e na formação de crianças e adolescentes.

Um dos momentos mais importantes da trajetória do aluno na capoeira é o tradicional batizado, cerimônia que marca o reconhecimento da evolução dos alunos e a passagem para uma nova etapa de aprendizado dentro da modalidade. O evento reuniu 200 alunos, que levaram os familiares para assistir à cerimônia, além de capoeiristas e mestres renomados de outros estados do Brasil que participaram da comemoração.
O evento foi realizado das 19h30 às 21h30 e contou com a participação de Mestre Camisa, Mestre Morcego e Mestre Canguru, do Rio de Janeiro; da Professora Camaleoa, de Minas Gerais; da Professora Barby, de São Paulo; do Instrutor Guepardo, do Rio Grande do Sul; e do Professor Cavanha, de Santa Catarina. Também participaram professores de cidades paranaenses como Paranaguá, Ponta Grossa, Maringá e Foz do Iguaçu, além de representantes de Campo Largo, Piraquara, Araucária e Pinhais.
Mais do que uma cerimônia, o batizado representa um momento de pertencimento para os alunos. Na tradição da capoeira, é quando o educando é apresentado e acolhido pela comunidade capoeirista, participa de uma roda e tem a oportunidade de jogar com mestres, professores e outros praticantes.
O símbolo mais marcante da cerimônia é a troca de corda. Cada nova graduação representa uma trajetória construída ao longo de meses ou anos de treinos, aprendizados, desafios, quedas e recomeços. A corda torna visível uma história que muitas vezes não é percebida por quem está de fora: a disciplina, as amizades, as rodas, as viagens e a influência de mestres e professores na formação de cada aluno.
“Mais do que receber uma corda, o batizado representa pertencimento. O aluno passa a perceber que faz parte de uma história, de uma cultura e de um grupo. É uma celebração daquilo que já foi aprendido, conquistado e, ao mesmo tempo, o início de uma nova etapa”, explica Jorge Luiz de Freitas, o Mestre Piriquito, coordenador técnico do projeto.
Capoeira como instrumento de transformação
Realizado pela Associação Volvo e viabilizado por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura e do Ministério da Cultura, o Projeto Capoeira e Cidadania nasceu em 2005 e utiliza a capoeira como instrumento de transformação social, cultura e educação.
O projeto oferece gratuitamente atividades para crianças, adolescentes e adultos de escolas públicas e comunidades em situação de vulnerabilidade da Cidade Industrial de Curitiba (CIC). O que começou com 70 alunos hoje reúne cerca de 300 participantes ativos e já impactou aproximadamente 5 mil pessoas ao longo de duas décadas.
Mais do que ensinar uma manifestação cultural, o projeto trabalha valores como disciplina, respeito, cooperação e autoestima, além de contribuir para o fortalecimento dos vínculos familiares e para a permanência dos jovens na escola. Muitos alunos incentivados pelo projeto chegam à universidade.
A iniciativa também mostra como a cultura pode criar caminhos de desenvolvimento em territórios marcados por desigualdades sociais. Localizado na Cidade Industrial de Curitiba, o projeto atua em uma região que possui desafios importantes nas áreas de educação e segurança pública, reforçando a importância de iniciativas que ofereçam novas perspectivas para crianças, adolescentes e suas famílias.
Histórias que vão além da roda
Entre os 200 educandos que participaram do batizado estão histórias que ajudam a mostrar o impacto do projeto na vida das famílias.
É o caso de Motorzinho, apelido na capoeira, uma das participantes, que é autista e encontrou na capoeira um espaço de convivência, desenvolvimento e pertencimento. A família também tem uma relação próxima com o projeto: o irmão dela também participa das atividades de capoeira.
Outra história impactante envolve irmãos de uma família que teve a casa atingida por um incêndio. Depois de enfrentarem a perda da moradia e a mudança para uma nova casa, eles estão conseguindo superar as barreiras e participar dos treinamentos de capoeira.
São histórias que mostram que, para além dos movimentos e das rodas, a capoeira pode representar vínculos, acolhimento, disciplina e a possibilidade de continuar avançando mesmo diante das dificuldades.
Capoeira ganha ainda mais destaque no Brasil
O evento ocorreu em um momento de reconhecimento nacional da capoeira. Em julho deste ano, a Lei nº 15.469/2026 instituiu o Dia Nacional da Capoeira, celebrado em 15 de julho. A data faz referência ao reconhecimento da capoeira como patrimônio cultural imaterial do Brasil pelo Iphan, em 2008.

A dimensão cultural da prática também é reconhecida internacionalmente: a Roda de Capoeira foi inscrita pela Unesco, em 2014, na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. A organização destaca a capoeira como uma prática cultural afro-brasileira que reúne luta, dança, música e conhecimentos transmitidos entre gerações, além de promover respeito mútuo e integração social.
Nesse contexto, o batizado do Projeto Capoeira e Cidadania representou não apenas uma celebração para os 200 educandos que receberam uma nova corda, mas também uma oportunidade de mostrar como a cultura brasileira pode ser utilizada como ferramenta de educação, formação e desenvolvimento social.
