Com 6,7 milhões de leitores a menos em quatro anos e 53% da população sem abrir um livro, o Brasil enfrenta uma crise silenciosa que pode redefinir sua capacidade de pensar, criar e se desenvolver

Quem diria que tanta tecnologia à disposição da cultura faria do homem um ser menos afeito ao conhecimento?
O mundo nunca teve tanto acesso à informação. Nunca foi tão fácil carregar uma biblioteca inteira no bolso. E, ainda assim, o brasileiro está lendo menos. Muito menos.
No mês em que o mundo celebra o Dia Mundial do Livro, 23 de abril, os números chegam como um balde de água fria para escritores, editoras e para a cultura nacional. O país perdeu 6,7 milhões de leitores em apenas quatro anos. Para ter ideia da dimensão: é como se o estado do Rio Grande do Norte inteiro tivesse decidido, de uma vez, largar os livros.
Pela primeira vez desde que a pesquisa existe, o levantamento Retratos da Leitura, do Instituto Pró-Livro, é feito desde 2001, os não-leitores superam os leitores no Brasil. São 53% da população que não abriu sequer uma página nos três meses anteriores à pesquisa, realizada em 2024. E os que ainda leem, leem cada vez menos.
OS NÚMEROS QUE ASSUSTAM
A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, acompanha o comportamento leitor dos brasileiros desde 2001. O retrato mais recente é duro.
Em quatro anos, o país perdeu 6,7 milhões de leitores. A média de livros lidos por ano caiu de 4,95 em 2019 para 3,96, o menor índice da série histórica. E a falta de paciência e foco para ler, declarada pelos próprios entrevistados, saltou de 18% em 2007 para 40%. Em menos de duas décadas, mais que dobrou.
As redes sociais têm papel direto nisso. Aplicativos e plataformas digitais são construídos para entregar recompensa imediata. O livro pede tempo, silêncio e foco, três coisas cada vez mais escassas. Para o escritor e editor Sandro Bier, fundador do Café do Escritor, o cenário exige uma postura nova de quem escreve: “Não dá mais para escrever partindo do pressuposto de que alguém vai ler naturalmente. Existe uma disputa real por atenção.”
Há, porém, um paradoxo. O mesmo ambiente que rouba o tempo da leitura também pode ser o caminho de volta a ela. Influenciadores literários no TikTok, YouTube e Instagram foram citados por 28% dos frequentadores da Bienal de São Paulo de 2022 como principal fonte de recomendação de leituras. Entre jovens de 10 a 29 anos, mais de 60% apontam criadores digitais como seus indicadores literários preferidos.
A ESCOLA QUE DEIXOU DE LER JUNTO
Em 2007, 35% dos estudantes liam na escola. Hoje, são 19%. A indicação de um professor como motivação para a leitura caiu de 25% em 2011 para apenas 4% na edição mais recente da pesquisa. Apenas três em cada dez escolas públicas brasileiras têm biblioteca. São 18 milhões de estudantes sem um único espaço dedicado ao livro.
André Ceruzi, diretor da Escola Willy Janz, em Curitiba, resume o problema: “A criança lê para responder questionário, não para se envolver com uma história. Quando tem livre escolha, obviamente vai para o que dá prazer imediato.”
Em casa, o hábito de ler junto foi sendo substituído pela tela. Ceruzi defende uma solução simples: “Vinte minutos de leitura em voz alta antes de dormir podem fazer mais pela formação do leitor do que qualquer projeto escolar.”
A família segue sendo o principal agente formador de leitores. Dezessete por cento dos entrevistados atribuem à mãe ou a uma figura feminina o gosto pela leitura. E os dados amparam a urgência: um estudo do Journal of Developmental Psychology mostrou que crianças criadas em casas com muitos livros têm, em média, três anos a mais de escolaridade efetiva ao longo da vida, independentemente da renda ou escolaridade dos pais.
Uma novidade acende uma luz no fim do túnel. A Lei 15.100, sancionada em 2025, proibiu o uso de celulares nas escolas. Gestores e especialistas já relatam aumento nos empréstimos de livros em bibliotecas escolares. Tirar o celular da sala de aula, ao que tudo indica, está devolvendo o livro a ela.
O QUE PODE ACONTECER SE NÃO MUDARMOS
Uma sociedade que lê menos desenvolve menos vocabulário, menor capacidade de raciocínio e menos empatia. A pesquisa já detecta os sinais: 36% dos entrevistados admitiram ter dificuldade de concentração ou compreensão limitada do que leem. Uma população que não entende bem o que lê é mais vulnerável à desinformação e menos capaz de exercer cidadania plena.
Para Bier, a raiz do problema está na escola: “Se a leitura não fizer parte da experiência cotidiana do aluno, a gente continua formando não-leitores, mesmo cercados de livros.”
AINDA HÁ TEMPO
O Dia Mundial do Livro existe para lembrar que a leitura não é um hábito de elite. É uma tecnologia humana de séculos que permite sair de si mesmo, expandir o que somos e acumular experiências que a realidade cotidiana não oferece.
Os sinais de alerta estão postos. Os dados são inequívocos. Mas o livro ainda resiste, nas feiras literárias que lotam, nos booktokers que viralizam, nas crianças que descobrem um mundo inteiro dentro de uma página.
A questão é se o Brasil vai agir antes que o apagão literário se torne irreversível.
A resposta começa, como sempre, com a escolha de abrir um livro.
